RESENHA INTRÍNSECA | “Miniaturista” – Jessie Burton


Autor: Jessie Burton
Editora: Intrínseca
Páginas: 352
Classificação: 3.5/5 estrelas

Vi esse título pela primeira vez na votação de melhores do ano do Goodreads em 2014. Na época, fiquei encantada com a capa, mas com um pé atrás porque estava na categoria de melhor ficção histórica, que não é lá meu gênero favorito. O grande diferencial? O livro também era indicado como fantasia e fantasia já é bem mais a minha praia, então sempre ficou ali, na fila, meio à espreita. No final do ano, a Intrínseca trouxe o título para o Brasil e eu enfim agarrei a chance da leitura.

A primeira coisa a se mencionar é que ele está mesmo muito melhor classificado como ficção histórica do que como fantasia, de fato. O pouco de “sobrenatural” que há no livro, para mim, não é sobrenatural em absoluto, embora haja espaço para interpretação. Miniaturista, na verdade, é um caso bem clássico de um livro que cada leitor vai ler de uma maneira diferente, então pode ser que outra pessoa veja as coisas de outra forma, mas fiquei com a impressão de que tudo podia ser racionalizado.

“Mulheres a bordo trazem azar”.

“Elas só trazem o azar que os homens dão a elas”.

O gancho da história é a morte do pai de Petronella Oortman quando ela está perto de completar 18 anos, deixando para a família apenas dívidas de bebida como herança. Residentes de uma cidadezinha pequena, a família Oortman não tem muitas expectativas de melhorar de vida depois disso, então Nella se muda para Amsterdã depois de um casamento arranjado com Johannes Brandt, um mercador rico e bem-sucedido, que a escolheu mais por seu sobrenome do que por expectativas românticas, que, junto do seu periquito Peebo, são tudo que Nella tem. Sua mãe lhe deu muitos ensinamentos sobre o que esperar do matrimônio, muitos deles pouco animadores, mas ela ainda tem sonhos de ter filhos e se apaixonar pelo marido que mal conheceu antes do noivado, coisas pouco ambiciosas e bastante comuns, considerando-se que a história se passa no ano de 1686.

O que ela não esperava era que seu esposo sequer estivesse em casa para recebê-la, deixando as boas vindas para serem feitas pela irmã, Marin Brandt, e os criados Cornelia e Otto, que são, por si só, uma prévia de que Nella não sabia o que iria encontrar: uma mulher fria que comanda a casa, sem deixar que Nella assuma seu lugar como senhora da casa; uma empregada que se considera senhora das fechaduras e entendedora dos mistérios da casa (que são muitos); e um ex-escravo negro que seu esposo comprou e manteve como criado emancipado, apesar da sociedade crítica que não sabe como lidar com as diferenças raciais -– a própria Nella sendo um exemplo disso.

A liberdade é algo glorioso. Liberte-se, Marin. As grades da sua gaiola são erguidas por você mesma.

Nella encontra muitas dificuldades em se adequar à vida em sua nova casa, principalmente porque seu novo marido não lhe dá a atenção que ela esperava receber, passando muito tempo fora de casa e sequer visitando seu quarto quando está lá, e até que Johannes, sentindo-se mal por não poder se dedicar mais a ela, lhe presenteia com uma versão miniatura da casa dos Brandt em um armário, o livro se arrasta um pouco, por termos muito pouco a acompanhar com o ponto de vista de Nella, que é, querendo ou não, uma forasteira ali dentro.

A partir do momento em que Nella, numa espécie de revolta por não ter voz ativa dentro da residência e ser menosprezada por todos, inclusive o marido, resolve contratar um miniaturista para mobiliar a casa de brinquedo é que o livro começa a engrenar. E por engrenar eu quero dizer que a densidade psicológica se eleva, pois este não é um livro de muita ação. Nella inicia sua coleção de miniaturas como um deboche, solicitando peças que, na vida real, a cunhada Marin detesta, mas recebe sem solicitar alguns acessórios a mais, aos poucos adicionando vida à casa. Uma vida que se assemelha muito à que ela está vivenciando e acompanhando, por vezes parecendo até prever coisas futuras.

Não foram poucos os leitores que apontaram os personagens como inverossímeis em suas resenhas, mas acho que a questão é que são realistas demais em alguns pontos, principalmente Nella, que é uma adolescente insegura longe de casa, cercada de segredos e se sentindo uma estranha no ninho, então é natural que por vezes seja frustrante seguir seu ponto de vista, porque ela segue em frente normalmente em momentos em que queremos uma heroína de livro típica, que corre atrás pra descobrir. Quando ela começa a mudar seu jeito de agir é justamente porque, como o leitor, ela se deixou vencer pela curiosidade. Isso para mim está longe de ser um defeito, na verdade era mais um charme da escrita da autora — mesmo que fosse um pouco frustrante na hora hahaha.

“Mas a experiência sempre precisa passar pelo sofrimento, Marin?”, pergunta Nella.

“No sofrimento conhecemos verdadeiramente a nós mesmos”, sentencia ela.

A escrita em terceira pessoa acompanha Nella no tempo presente, coisa que me deu um pouco de trabalho no começo, mas a prosa é linda, elaborada e descritiva e logo você fica imerso na Amsterdã em sua era dourada e tudo que quer fazer é saber o que vai acontecer com essas pessoas e por que as coisas acontecem desse jeito, especialmente porque com os segredos se desvendando você descobre a doçura e ingenuidade de uns, enquanto a frieza de outros se desmancha em camadas infinitas de maturidade e remorso. Marin, pra mim, foi a estrela do livro, justamente por mudar muito aos olhos do leitor conforme as miniaturas desvendavam seus segredos.

Infelizmente o livro é muito curto para poder apresentar a fundo todos os temas a que se propõe, incluindo igualdade de gênero, racismo, hipocrisia teológica e homossexualidade, mas faz um excelente trabalho em dar uma ideia de como as coisas eram à época e do que mudou – ou não – até hoje. A escrita, como já dito, é linda, e os personagens vão cativando e envolvendo o leitor aos poucos, quase sem que se perceba. Uma leitura bastante recomendada.

Há horizontes para além dos tijolos, Nella. Espere e verá.


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Hanna

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