RESENHA | “O Mosaico e Outras Histórias” – Nikolai Streisky


Autora: Nikolai Streisky
Editora: Chiado
Páginas: 218
Classificação: 4/5 estrelas

Citando livremente Edgar Allan Poe em seu filosofia da composição, podemos dizer que o conto seria a forma mais eficiente de ter total atenção e efeito sobre o leitor. Em Mosaico e outras histórias temos vários exemplos do que dizia Poe, são histórias curtas, objetivas e com um efeito certeiro em nós leitores, sejam de raiva, encanto, medo e descrença. São contos de temas variado como gênero policial, de suspense, ficção cientifica e fábulas modernas. Além de ter ilustrações muito interessantes e algumas bem assustadoras. É um mundo de histórias em um só livro.

Vou falar de cada conto em separado.

Mosaico

Este é um conto policial. Acompanhamos o detetive Augusto Albuquerque, um português radicado em Londres, que investiga uma série de assassinados do chamado assassino do inverno, que ocorrem há muitos anos e cujo o assassino nunca foi capturado. Ele construiu um mosaico de investigação, definindo características do assassino, que vão ser reveladas até o fim do conto. Ele é um típico Sherlock Holmes, muito brilhante, tem seus vícios e problemas.
É um conto curto e objetivo, e foi uma das poucas vezes que me senti confortável lendo gênero policial. Não leio muito o gênero pois tenho sentimentos de impaciência quando a solução demora muito a se desenrolar. Aqui não tive isso, na verdade adoraria ler um romance com esse detetive. O texto me impactou bastante, adorei as citações bibliográficas, poisme senti lendo um texto acadêmico, não lembro de ter visto nada assim em ficção.

O Lógico

É de certa forma a continuação do conto passado pois o começo deste conto é o epilogo de Mosaico.
Acontece 10 anos depois do primeiro conto. Aqui temos outro detetive, Charles Beirce, que trabalha de forma independente esta investigando as consequências do conto anterior. Neste aqui temos um detetive mais moderno, cheio de gadgets que fazem seu trabalho ser mais dinâmico.
Além de retomar o que Mosaico deixa inacabado, ele também investiga a morte de um casal e a possível volta do assassino do inverno.
Aqui temos um conto mais longo, quase uma novela, que vai mostrar um novo assassino, e um detetive que possui alucinações. Trazendo um pouco de horror cósmico dentro de uma história policial.
E mais uma vez temos um detetive com problemas tentando sobreviver e fazer justiça.
Gostei tanto quanto o primeiro, mesmo sendo mais longo a história é muito dinâmica e as resoluções muito práticas. E Charles ainda consegue ser mais intrigante que Augusto, eu acredito que os dois dariam uma boa dupla.

O panóptico

Este conto mistura horror de monstro e política. Como se fosse um 1984 com os monstros de Doctor Who. É um conto curto, mas muito intenso, pois vamos descobrindo uma verdade a acerca de uma sociedade que vive regulada por esse panóptico que ninguém sabe o que ele é na verdade. E esse homem vai fundo em busca desta verdade e bem, terão de ler para descobrir.

Os Zigurates do deserto

Considero este um conto mais fantástico, cidades ficam dentro desses Zigurates, que são espécies de redomas que controlam todos os aspectos para que as pessoas possam sobreviver dentro daquele espaço. O conto discorre sobre o que são os Zigurates, sua fundação e estrutura política.
É mais um conto muito curto, mas que diferente dos outros deixa uma sensação de incompletude, eu gostaria de saber mais.

O andarilho atômico

Esta é uma história pós-apocalíptica, e o começo dela me lembrou muito O pistoleiro do Stephen King, primeiro livro da série A torre negra. O mundo e o personagem se assemelham muito. É um faroeste do futuro, onde este estranho sem nome vaga pelo deserto radioativo, tendo que lidar com o ambiente, e com um bando de ladrões.

O enxame

Também é um futurista, mas um pouco mais realista e com um destino bem trágico. Fala das consequências climáticas sobre o planeta e dos seres humanos e devo assumir o prospecto é bem deprimente neste conto.

O imperador rubro e o signo amarelo

Mais um conto de ficção cientifica, este foi um dos contos mais inventivos e originais da coletânea. É um mundo complexo, cheio de histórias, muito rico em informações, só que as mesmas dadas de forma muito acelerada. Com certeza se fosse um romance seria mais completo, apesar de ser um dos contos mais longos da coletânea falta para mim mais explicações e detalhes. Existem elementos muito bons como viagem no tempo e tem referência ao guia do mochileiro das galáxias aqueceu o coração.

O Grande Inverno

Este conto remete as ideias vistas em o Enxame. Pense num mundo onde a tecnologia seja utilizada para controlar a temperatura de outros planetas, mais especificamente de Vênus. Desta vez de uma forma menos trágica.

Depois desse primeiro bloco, temos o que o autor chamou de Histórias da Juventude, escritos entre seus 16-18 anos. Eles fogem as temáticas vistas nos oito contos anteriores, trazem temas mais sentimentais e filosóficos. Vamos a eles:

Dúvida

Um dos textos mais bonitos e reflexivos da coletânea. Muito curto mas muito forte em suas colocações, uma das citações favoritas é esta:
O tempo mede forças, o que
poderá ser tenta mostrar que é melhor do que o já foi e o
acontecido tenta vencer o talvez.

Prisioneiro de uma existência

Outro texto muito bonito sobre a existência, sobre o quanto muitas vezes ficamos presos dentro de nós mesmos. Semelhante ao anterior na forma e comprimento, este consegue mexer ainda mais com nossos sentimentos.

A foto

Este é um dos meus favoritos, no começo lembra aqueles livros que contam aquelas histórias de juventude, sobre um garoto tímido e recluso e tímido que tem somente um casal de amigos, e é apaixonado pela menina. O protagonista tem interesse por um bosque onde ocorreram assassinatos terríveis, pede a ajuda dos seus amigos para explora-lo e ele acaba se interessando e iniciando uma investigação. Contudo, no final um twist na história acontece, e o desfecho não era nem de longe o que eu esperava. Incrível.

A tarefa do escritor

A palavra escrita me conforta nos momentos de tristeza
e ignorância. Escrever me faz perceber o quanto as palavras
são poderosas, e o quão pequeno é o escritor perto
dessa imensidão de letras.

Assim começa este texto, que me pareceu muito mais uma crônica , que fala do oficio da escrita. É lindo. E não parece ter sido escrito por um menino daquela idade, mostra claro a maturidade do escritor desde aquela época.

As duas mortais

Uma história de fantasia sobre duas irmãs gêmeas, Lizzy e Laila, que são como agua e vinho. E a competição delas pela atenção de um príncipe. Uma das histórias menos cativantes desta coletânea, achei que as duas irmãs tinham a mesma mesquinhez e defeitos.

Chuva

Outros desses textos mais reflexivos, meus favoritos desta segunda parte. Uma busca pela realização pessoal , buscar um objetivo na vida, uma razão.

– Esse é o problema. Diz o garoto, interrompendo sua
marcha, sem olhar para trás. Você espera algo que mude
sua vida, mas talvez se a mudasse primeiro, seria infinitamente
mais fácil.

Seis dias nos reinos do desespero

Dividido em seis dias, o conto narra a história deste homem está num trem passando por vários países e momentos históricos da humanidade, como se fosse uma exibição itinerante de museu a céu aberto. E em cada uma desses dias ele reflete em algum aspecto da sociedade humana e também da existência.

A solidão realmente nos entrega um fardo pesado quando
entramos em seu reino.

Um os textos que mais te faz refletir. Maravilhoso.

Poesia Silenciosa e Aurora

Mais um texto sobre escrita, desta vez mais introspectivo e pessoal e O único poema dessa seleção. Muito breve mais bem bonito.

Três irmãos

A história então que fecha a coletânea também é uma das melhores, e impressionante que diferente dos outros textos dessa fase, este demonstra a maturidade que conseguimos ver nos primeiros contos. Esta fábula meio borgeana, sobre esses três irmãos que representam três situações que o ser humano almeja, teme e aceita . As metáforas do conto são inteligentíssimas, a escrita é apurada e a história muito envolvente.

Mosaico e outras histórias, não tem este título por acaso, aqui temos sim uma amostra de vários estilos de um mesmo autor, como um mosaico mesmo. O Nikolay te mostra nesses contos, talento, composição e imaginação apuradas.

Para aqueles que não possuem o habito de ler contos, sugiro este livro como uma porta de entrada. Recomendado.


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Virginia Bizerra

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