Autora: A.S. King
Editora: Novo Século
Páginas:
 288
Classificação:
4/5 estrelas

A.S. King é uma autora com já uma certa fama no Brasil e talvez isso faça com que você, assim como eu, comece esse livro com altas expectativas. Por favor, não faça isso.

É muito fácil colocar toda a culpa no garoto morto, não é?

O plot gira em torno de Vera Dietz e Charlie Kahn, melhores amigos desde crianças até que completaram 17 anos e Charlie mudar tudo. Agora ele está morto, e de uma forma horrível. Para piorar, ele morreu com Vera odiando-o. Mas, para seguir em frente, ela deve descobrir o que realmente aconteceu e enfim perdoá-lo. Principalmente, Vera  precisa se perdoar.

Bem, sabe aquele garoto que você torce para se tornar o par da protagonista, que erra e talvez seja somente incompreendido? Ele existe nesse livro e acaba de morrer, mas até você terminar este livro provavelmente essa visão romântica também vire pó.

Vivia intensamente porque estava morrendo por dentro.

Com uma narrativa leve e entre capítulos curtos, a autora se aprofunda não somente na morte de Charlie, mas em sua história ao lado de Vera, a infância e, o mais importante, suas famílias. E a cada capítulo vemos como os personagens crescem, escolhem diferentes caminhos, e se distanciam mais e mais até o ponto de ruptura. Somente algo nunca muda: a estranha mania de todos em ignorar tudo, em jogar para debaixo do tapete os assédios, o bullying e os pedidos de socorro. No desfecho desse livro, me perguntei como algo fica assim tão fodido e como ninguém se mexeu para fazer nada, e como é muito fácil para mim, como leitora, apontar e criticar quando eu também não preciso fazer nada. A vida muitas vezes é triste, e os seres humanos cruéis, e A.S. King não poupou esforços para mostrar isso.

Quando eu pensava em como devia ser o verdadeiro amor, imaginava que seria uma mistura como essa. O verdadeiro amor incluía partes iguais de bom e de ruim, o verdadeiro amor permanece.

Entretanto, em contrapartida a ideia maravilhosa em cima da qual essa história foi construída, não dá para dizer que foi uma leitura maravilhosa. Na verdade, muitas vezes ela se tornou cansativa e se aquele sensação horrorosa de ler um livro e torcer para que acabe logo (e sofrer ainda mais porque faltam cem páginas) aparece é porque há algo muito errado. Okay, a ideia desse livro foi ótima, sua construção nem tanto — capítulos que parecem não levar a nada, assim como comentários e tantos outros pontos que me fizeram questionar o que seria ficção e o que seria realmente a opinião da autora.

E ainda que nada seja perfeito, preciso destacar que os acertos foram maiores. Por Favor, Ignore Vera Dietz pode causar uma indigestão por ser tão cru e verdadeiro. E a forma como você lida com seu desfecho depende da escolha entre apontar vários personagens como grandes filhas da puta sacanas ou aceitar que uma família desestruturada e consequentes abusos  estão por traz de vários atos — não que isso torne mais fácil perdoar.

“Você me perdoa?”

“Ainda não.”

E será que existe alguma forma mais fácil de lidar com essa historia? Ou seria possível uma realidade paralela onde tudo deu certo, onde pais não espancavam, e mães não apanhavam todo dia ou simplesmente largavam seus filhos? E se essa realidade é possível, qual realmente se aproxima do que realmente acontece fora dos livros, no dia a dia de milhares de pessoas?

Um outro aluno praticando bullying na escola? Ignore-o. Uma garota espalhando boatos? Ignore-a. O professor do oitavo ano belisca o bumbum da sua amiga? Ignore. O professor machista de  Geometria dizendo que as garotas não deviam fazer faculdade porque tudo que farão na vida é parir bebês e engordar? Ignore-o. Ouviu dizer que uma garota da sua sala está sendo violentada pelo padrasto e teve que ir para a clínica? Ouviu dizer que ela está trazendo os comprimidos da mãe para a escola e vendendo-os para pagar pelo aborto? Ignore. Ignore. Cuide da sua própria vida.

Esse foi o principal objetivo de A.S. King: incomodar com sua verdade, ainda que eu não acredite que ela quis propositalmente também incomodar com a forma como decidiu construir a trama já que isso impediu a leitura de fluir. E talvez voce odeie esse livro no final, e eu entendo muito esse sentimento, mas não posso deixar de acreditar que, entre trancos e barrancos, a autora também terminou sua história com um certo louvor.

Vamos aprender a nos perdoar concomitantemente.

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Publicado em 12/01/2016
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Comentários
  1. Raiza Santos disse:

    Estou retomando a leitura desse livro. Amei a sua resenha, ela foi bem verdadeira e resumiu bem tudo que sinto em relação a leitura e a história. Eu gosto da autora, espero ler mais livros dela.

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